Educação climática: o alerta que a COP30 não pode ignorar

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Em conferências climáticas, a maior parte das discussões gira em torno de metas, emissões, acordos e financiamento. Mas há um ponto decisivo que, mais uma vez, apareceu de forma tímida nas mesas da COP30: a educação climática, especialmente a educação das crianças, que já vivem as consequências da crise.

A urgência desse tema não vem apenas da experiência cotidiana. Ela é respaldada por organismos internacionais que vêm alertando, há anos, para o impacto desproporcional das mudanças climáticas sobre a infância.

As crianças são o grupo mais afetado pela crise climática oficialmente

Segundo o relatório “The Climate Crisis Is a Child Rights Crisis”, do UNICEF (2021),
1 bilhão de crianças, quase metade das crianças do mundo, vivem em áreas com risco extremamente alto de impactos climáticos.

Entre os principais riscos listados pelo UNICEF estão: ondas de calor mais intensas, enchentes e tempestades mais frequentes, poluição do ar acima dos limites seguros, escassez de água e insegurança alimentar crescente.

O relatório afirma que “nenhuma criança é responsável pela crise climática, mas todas irão herdar suas consequências”. Outra advertência aparece nos cenários do IPCC, o painel científico da ONU: crianças nascidas hoje viverão três a quatro vezes mais eventos climáticos extremos do que seus avós, caso o aquecimento global ultrapasse 1,5°C. Esses dados reforçam algo óbvio, mas pouco debatido nas negociações internacionais. A educação climática não é acessório, é proteção.

O que dizem especialistas e instituições?

A UNESCO, em seu relatório “Education for Sustainable Development: A Roadmap” (2020), afirma que a educação climática deve começar na primeira infância, porque é nesse período que as crianças estruturam a percepção sobre natureza, o senso de pertencimento, valores de cuidado, além do entendimento básico de causa e consequência.

A organização também identificou que mais de 70% dos currículos escolares do mundo não incluem conteúdos climáticos de forma adequada. E mesmo onde existe alguma abordagem, ela costuma ser tardia, abstrata ou desconectada da vida real das crianças. Na COP30, essa lacuna ficou evidente.

O que falta nas negociações?

Em entrevista dada durante o evento, JP Amaral, do Instituto Alana, reforçou que a educação ambiental segue fora do centro da agenda internacional mesmo quando tudo indica que ela deveria estar no começo da conversa. A COP30 debate mapas de caminho, transição energética, financiamento climático e metas globais mas não estabelece compromissos claros de educação ambiental para escolas públicas, professores e redes de ensino. Sem isso, criamos gerações de crianças que vivem a crise, mas não compreendem o que a causa nem como podem agir individual e coletivamente.

Por que começar na infância?

Pesquisa após pesquisa confirma que a infância é a fase mais sensível para formação de valores e percepção do mundo. A Harvard Center on the Developing Child destaca que experiências significativas entre 2 e 7 anos moldam arquitetura cerebral relacionada à empatia, cooperação e ação coletiva, todas habilidades críticas para o século XXI. Em outras palavras, se queremos adultos capazes de proteger o planeta, precisamos começar educando crianças que entendam o planeta.

Ao analisar casos de sucesso internacionais (como Finlândia, Costa Rica e Nova Zelândia), um ponto é comum. A educação ambiental não é vista como “tema transversal”, e sim como estrutura curricular, integrada a ciências, artes, literatura, geografia e outros. É esse tipo de compromisso que falta aparecer com força nas COPs.

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